O debate que hoje toma conta das redes sociais e do Congresso Nacional — a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 — não é um fenômeno novo. Na verdade, ele é o “eco” de um grito que começou há quase 40 anos, nos corredores da Assembleia Constituinte de 1987. Enquanto o Brasil tentava se reencontrar com a democracia, o trabalhador vivia uma realidade de esforço físico exaustivo, sob um sol de 48 horas semanais.
Recuar até 1987 é entrar em um país de contrastes antes da promulgação da Constituição de 1988, na época o padrão estabelecido pela CLT de 1943 ainda era soberano: a jornada era de 48 horas semanais. Na prática, isso significava seis dias inteiros de trabalho, de segunda a sábado, com apenas o domingo para o descanso — que muitas vezes era consumido pelo cansaço acumulado.
Naquela época, a inflação galopante do governo Sarney corroía os salários em questão de dias, e o “lazer” era um luxo para poucos. O ambiente fabril era marcadamente manual e as exigências de segurança eram mínimas se comparadas aos padrões rigorosos de hoje.
Se você caminhasse pelas ruas de Mariana ou Ouro Preto em 1987, o cenário automotivo era dominado por ícones que hoje habitam apenas encontros de colecionadores. Era o ano em que o Chevrolet Monza ocupava o posto de sonho de consumo da classe média. Ao mesmo tempo, víamos o fim de eras:
- VW Fusca: Sua primeira fase de produção no Brasil havia encerrado oficialmente em 1986 (só retornaria anos depois a pedido de Itamar Franco). Em 87, ele já era considerado um “clássico” que saía de linha.
- Chevrolet Chevette: O sedã de quatro portas, uma raridade hoje, teve sua produção encerrada justamente em 1987.
- Ford Escort e Fiat Uno: Começavam a ditar a tendência dos compactos modernos que veríamos nas décadas seguintes.
O que mudou? O salto nos direitos e na dignidade
A partir da Constituição de 1988, o Brasil deu um salto civilizatório. O que hoje consideramos o “mínimo” foi conquistado à base de muita pressão sindical e política. Veja as exigências e direitos que vieram após aquela era:
- A Jornada de 44 Horas: O primeiro grande passo foi a redução das 48 para as atuais 44 horas semanais, garantindo ao menos o sábado à tarde livre para muitos.
- O Espaço da Mulher: A licença-maternidade saltou de 90 para 120 dias (e hoje chega a 180 em empresas cidadãs). Mais do que isso, a lei passou a proibir explicitamente a diferença salarial por gênero e a proteger a estabilidade da gestante.
- Segurança em Primeiro Lugar: As Normas Regulamentadoras (NRs) tornaram-se lei viva. O uso de EPIs, treinamentos de segurança e a responsabilidade civil das empresas em acidentes de trabalho evoluíram de recomendações vagas para obrigações inegociáveis.
- Respeito e Saúde Mental: Conceitos como assédio moral e Burnout não existiam no vocabulário jurídico de 1987. Hoje, o respeito à integridade psicológica do trabalhador é pilar central de qualquer gestão de RH moderna.
Olhar para trás e ver o fim da era dos Chevettes e Del Reys nos lembra que tudo se transforma. No entanto, a balança entre produção e descanso ainda busca o seu equilíbrio. O movimento pelo fim da escala 6×1 é o capítulo mais recente de uma luta que começou quando o sábado ainda era um dia de labuta integral. Hoje, em um mundo conectado e tecnológico, o maior luxo não é mais o carro na garagem, mas o tempo para viver o que está fora do crachá. Se fomos capazes de modernizar nossas indústrias e nossas leis em 1988, talvez estejamos prontos para o próximo salto civilizatório.



