Há sabores que desaparecem da nossa rotina sem que a gente perceba. Deixam de aparecer nas mesas de família, tornam-se raros nos restaurantes e, aos poucos, ficam guardados na memória. Até que alguém resolve trazê-los de volta.

Foi a samambaia que me chamou a atenção no Quintal da Núria, instalado em um vagão da Estação Ferroviária de Mariana. Sou apaixonada por esse ingrediente, mas há muito tempo não o encontro à mesa. Saber que ele faz parte do cardápio despertou minha curiosidade.
E não é só ela. Frango com quiabo, ora-pro-nóbis, dobradinha com feijão branco e outras receitas da cozinha mineira formam um repertório que parece simples, mas carrega histórias de família e saberes transmitidos entre gerações.
À frente da cozinha está Núria Anacleto, cuja trajetória gastronômica tem raízes em Passagem de Mariana. Sua culinária reúne influências afro-mineiras, receitas de família e ingredientes que fazem parte da identidade alimentar da região.
A chegada do Quintal da Núria à estação tem um significado especial para o turismo local. Mariana possui igrejas, casario colonial e manifestações culturais que atraem visitantes interessados em sua história. Mas a identidade de uma cidade também está naquilo que seus moradores aprenderam a cozinhar e a comer.
Talvez esse seja o aspecto mais rico da proposta: apresentar ao visitante uma gastronomia que não foi inventada para agradar turistas. São sabores que já estavam aqui, nos quintais, nas cozinhas e nas lembranças.
Há uma diferença entre oferecer comida típica e proporcionar uma experiência ligada ao território. A primeira alimenta. A segunda também conta uma história.
Para quem chega de fora, é a chance de descobrir uma Mariana para além dos monumentos. Para quem vive aqui, o reencontro com um prato feito pela avó, um ingrediente raro ou um tempero da infância.
O espaço funciona na Estação Ferroviária, na Praça Juscelino Kubitschek, de terça-feira a domingo, das 12h às 18h.
Em uma cidade turística como Mariana, preservar receitas, reconhecer quem domina esses saberes e oferecer experiências gastronômicas verdadeiramente locais não é detalhe. É patrimônio. E isso também é ouro.






