Sob o piso de um casarão colonial na antiga rua Direita, em Ouro Preto, um ambiente escuro, apertado e quase invisível preservou por séculos vestígios pouco conhecidos da presença africana na antiga Vila Rica. O que parecia ser apenas uma reforma em um sobrado de cerca de 260 anos revelou um conjunto raro de grafismos associados ao período da escravidão no Brasil colonial.

Os desenhos foram encontrados no porão do imóvel, localizado na rua Conde de Bobadela. O espaço, de difícil acesso, possui pé-direito baixo, ausência de luz natural e permaneceu sem energia elétrica até a década de 1980.

Nas paredes do subsolo foram identificadas inscrições, pinturas e incisões que incluem figuras humanas, animais, embarcações, formas geométricas e símbolos ligados a tradições africanas. Parte dos registros só pôde ser observada com auxílio de iluminação especial e tratamento digital.

Em março de 2026, um parecer técnico recomendou a homologação do cadastro do local como sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas” no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do IPHAN.
Pesquisadores identificaram cerca de 26 desenhos executados com técnicas diferentes, incluindo grafites com pigmentos escuros e avermelhados, além de inscrições gravadas diretamente nas paredes.
A descoberta desloca parte do olhar tradicional lançado sobre Ouro Preto, geralmente associado às igrejas barrocas e às marcas das elites mineradoras do século 18. Os registros encontrados no porão revelam outra camada da formação da cidade: a presença africana e afrodescendente que sustentou a vida econômica e social da antiga capital do ouro.
Ainda não há definição precisa sobre autoria ou datação das imagens. A hipótese é que tenham sido produzidas entre o século 18 e o início do século 19.




